quarta-feira, 23 de março de 2011

As minhas vanguardas









Sou feita de vanguardas…daquelas despoletadas pelas revoluções da vida. Sou um aglomerado cosmopolita com células de vários estratos socioprofissionais e culturais, de vários níveis intelectuais e de interesse, de várias proveniências e origens, que por ai anda perdido sem saber onde se fixar.

Sou como o impressionismo feita de ideias para a seguir as negar, quero o sentimento imediato para depois o pensar. Procurei observar a vida citadina e encontrei-te! As minhas memórias nada mais são que captações de uma dada realidade parcial e sensível quer da luz quer dos seus efeitos em ti e no que te rodeava . Os momentos são fotografias e as fotografias são momentos e lá pelo meio ainda se encontram umas estampas, mas nelas as coisas encontram-se borradas, só aparecem os teus instantes mais luminosos, mais fugazes e fugidios, que ora hoje são cor-de-rosa como amanhã poderão ser pretos. Os primeiros contactos... pequenos, nervosos, com vírgulas e rápidos, tal como as pinceladas de um impressionista. Deles só me lembro das cores que me deixaste ver em ti.

Sou temperada com o Simbolismo, quero lá saber do representativo e dos objectivos, gosto de me fechar na minha interioridade e com os meus pensamentos alcançar a sublimação da realidade visível do que um dia vamos ser. Tenho as minhas raízes mais profundas no misticismo romântico. Baseio-me em estados emocionais e anímicos e intrigam-me os ideístas , simbolistas , sintéticos e subjectivos como tu.

O meu forte é o expressionismo, os períodos de emotividade intrínseca e introspecção de grande intensidade, pelos quais passo. São fases fortes, emocionais, enigmáticas e dramáticas em que tudo aparece deformado com grande brutalidade e a sátira toma conta de mim. As minha fontes de inspiração e conhecimento canalizam as suas forças para o intuito de te questionar, criticar contestar e destruir e a angústia revela-me o lado mais trágico da vida. Nestes dias és patético e deformado, a minha mente simplifica-te deixando só o essencial. E a cereja em cima do bolo é a minha maneira de exprimir tanta introspecção profunda…sou espontânea, o comportamento temperamental, desenfreado e irreflectido, os planos são como esboços toscos e inacabados e as palavras arcaizantes, primitivas e infantis. Mas depois sou como "O cavaleiro azul" e acredito que fazemos parte de uma grande unidade existencial e que a vida é feita de experiências, de sentimentos subjectivos e das sensações de cada um. E é aqui que acho que tanto pensamento não é útil á vida, que os espíritos abstractamente meditativos, sem grandes desejos e ambições, sem ser os de levar uma vida simples e ter alguém com quem partilhá-la, esses sim são os que são verdadeiramente felizes e alcançam uma harmonia espiritual. É neste momento que vejo o lirismo das tuas qualidades, és duro ou macio, quente ou frio, doce ou amargo…o dinamismo do teu físico, a tua magia, o teu fascínio, sinto a tua energia psíquica….pelo menos por momentos que seja.

E eis que vem a problemática do Cubismo! A minha necessidade de entender o mundo e as coisas de forma completa separando as imagens fenoménicas da realização plástica. A minha visão simultânea e multifacetada dos teus vários aspectos onde procuro a verdade sobre ti. Considero-te para além do que conheço de ti, para além do que vejo, tendo sempre em conta aquilo que conheço, o que resulta sempre numa composição bastante complexa. Lá pelo meio aparecem peças que não encaixam como que colagens, que utilizas com o objectivo de estimular os teus espectadores e desfazes-te assim da tua carga hermética. E isso confunde-me…e o meu cubismo analítico evolui para o geométrico e tornas-te igual a todos os outros, uma forma geométrica simples, intelectualizada por mim, analisada através da razão e consequentemente vais-te misturando no meio da multidão e tornas-te mais um. Posso ainda tentar salvar-te tentando reforçar os teus pontos fortes, os teus aspectos mais vibrantes e sobrepondo-os uns aos outros…mas no fim acabarás por te perder no tempo.

Mas enganas-te ao pensar que entrarei de novo numa fase deprimente e de introspecção, é nestas alturas que entra o Futurismo. O movimento, a velocidade, o álcool, as drogas, as festas, as noites sem dormir, os flirts…a noite madrasta. Eu não quero pensar, eu quero sentir, eu quero fluir e desaparecer no ar. O mais importante é descobrir a sensação dinâmica e eternizá-la como tal. Porquê olhar para trás? O tempo e o espaço morreram ontem. Não há senão a coragem, a ousadia, a revolta. A destruição é necessária para a construção de um novo ciclo.

E sou dadá. Sou anti tudo e sou anti todos! Sou um bixo do mato que morde quando atacado! Defendo o absurdo, o incoerente, a desordem, o caos. Prostesto contra a Civilização que me oprime. Não quero saber de nada disto! Deixem-me em paz no meu mundo absurdo...