terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mão Esquerda

Não foi até este Inverno que a minha mão esquerda passou a ter um significado especial. Até então, tinha vivido como qualquer outra mão. Era um cartão de visita para o mundo decorado pelas cores dos vernizes e a quantidade certa de metal, uma arma de sensualidade, prazer e carinho, um instrumento de trabalho.
Certo dia, andava ela perdida por essa noite lisboeta, servindo de suporte para um Marlboro Gold e pingada com gin, quando já por entre tombos, esbarrou numa mão esquerda pálida e delicada, com quem iniciou um acto de conversação. Já tinha, em tempos, se deparado com ela por esse mundo fora, mas nunca lhe dedicou muito interesse nem tempo, sabendo apenas que esta tinha, entre todas as suas funções normais, uma especial...Esta não era uma mão esquerda qualquer...ela era capaz de transmitir a partir do seu tacto profissional, sensações que nos fazem formigueiros nos pés e nos põem a dançar, transportando consigo toda uma carga simbólica e cultural, todo um pensamento, um cuidado e uma magia, que estão por detrás do seu dono.
Ela aproximou-se subtilmente com os seus dedos meigos e tocou na minha, projectando no seu toque todo o seu calor e energia. Nos dias que seguiram, a minha mão experiênciou um misto de medo com intriga. Sentiu-se intrigada pelas faíscas emitidas em torno deste contacto e pelas sensações que lhe eram transmitidas. Sentia-se ameaçada quando estas passavam e aquela mãozinha delicada continuava ali a agarra-la firmemente, a emanar o seu calor, roçando e entrelaçando os seus dedos na minha. Ela encolhia-se e fechava-se sem saber o que fazer mas a mãozinha delicada continuava lá expectante.
E assim, este jogo continuou, por tempo indeterminado, mandando ora faíscas, ora foguetes, ora incêndios, ora tempestades...Até que um dia, num acto de plena ternura e paixão, de união de esforços entre a mão direita e a esquerda, estas se dirigiram á mãozinha pálida e delicada, pegaram nela e na sua pele gravaram a tinta preta as palavras: gosto de ti. As minhas mãos tornaram aquela mãozinha ainda mais especial, ligando-a a palavras que expressam um dos sentimentos mais puros e simples, o gostar. Dali para a frente, o seu dono olharia para ela e iria recordar-se do seu significado, estampando no seu rosto um sorriso de felicidade.
Num acto de grande carinho a sua mãozinha, não quis ser sozinha responsável por transportar o significado de um sentimento tão bonito e pediu a minha para a ajudar, disse-lhe que juntas eram capazes até de transformar esse sentimento numa coisa ainda mais bonita, e enquanto a tentava convencer, afagava-lhe delicadamente a pele com movimentos suaves que fizeram o meu corpo arrepiar-se, me enregelaram os ossos,o coração bateu mais forte, a voz tremeu-me e as minhas cuecas molharam-se....e a minha mão esquerda só conseguiu agarrar aquela mãozinha delicada com toda a força que tinha.

R.

2 comentários:

  1. eita Rita mas que grande post. esta inspiração toda traduzida em palavras só pode vir de uma outra parte do corpo humano, o coração;) é ou não é? muah

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  2. a vontade de escrever veio do coração mas é so um relato de factos reais, aconteceu tudo! =)

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